O anúncio feito nesta quarta-feira (18) pelo deputado estadual Tadeu Hassem, durante pronunciamento na tribuna da Assembleia Legislativa do Acre, marca mais do que um simples reposicionamento político — escancara uma mudança de postura que inevitavelmente levanta dúvidas sobre coerência e fidelidade no exercício da vida pública.
Até então integrante da base do governador Gladson Cameli, Hassem não apenas declarou sua saída como também entregou cargos e solicitou a exoneração de sua irmã, Fernanda Hassem, da estrutura do governo estadual. O gesto foi apresentado como uma decisão firme, planejada e alinhada com sua base política e familiar. No entanto, o que se observa, para além do discurso, é uma reviravolta que contrasta fortemente com o comportamento recente do parlamentar e de sua própria irmã.
Não faz muito tempo que ambos demonstravam alinhamento, respeito institucional e até proximidade política com o governo que agora deixam para trás. A atuação conjunta, o apoio às pautas e a presença ativa na base governista indicavam não apenas uma aliança circunstancial, mas um compromisso político que, ao que tudo indica, se mostrou frágil diante de novos interesses.
Ao justificar sua decisão com a frase “a vida é feita de ciclos” e afirmar que “não é contra o governador”, Hassem tenta suavizar um movimento que, na prática, tem forte impacto político e simbólico. Afinal, ao abandonar a base e aderir ao grupo do senador Alan Rick — pré-candidato ao governo —, o deputado não apenas muda de lado, mas contribui diretamente para o enfraquecimento da atual gestão.
A incoerência percebida está justamente na rapidez dessa transição. Se antes havia convicção no projeto do governo Gladson Cameli — como o próprio deputado afirmou ao dizer que “acreditou no projeto” —, o que mudou de forma tão repentina? Teria sido apenas uma “decisão de futuro”, como alegado, ou estamos diante de um movimento estratégico típico de pré-período eleitoral?
A participação de sua irmã, Fernanda Hassem, também não passa despercebida. Sua saída do governo, acompanhando o irmão, reforça a impressão de que a decisão tem um caráter familiar e político simultâneo, mas também expõe uma contradição: como alguém que ocupava cargo na gestão estadual até então passa, de forma imediata, a integrar um novo grupo político sem maiores explicações públicas?
Esse tipo de movimentação alimenta a percepção de que, muitas vezes, alianças políticas são menos guiadas por princípios e mais por conveniências. O eleitor, por sua vez, observa e questiona: até que ponto o discurso de compromisso com projetos públicos é genuíno, e quando ele se torna apenas uma peça de ocasião?
A saída de Hassem ocorre em um momento sensível, somando-se ao desligamento recente de outros parlamentares da base governista. O resultado é um cenário de instabilidade e antecipação da disputa eleitoral de 2026, que parece já ter começado nos bastidores — e agora, de forma cada vez mais explícita, também no palco público.
Mais do que uma simples troca de lado, o episódio evidencia uma prática recorrente na política brasileira: a facilidade com que alianças são desfeitas, muitas vezes sem uma justificativa que convença plenamente a sociedade.
No fim, fica a reflexão: quando a política se torna um jogo de conveniência, quem realmente paga o preço dessas mudanças não são os grupos políticos — é a confiança do eleitor.
