O aumento dos prejuízos acumulados por empresas estatais federais tem ampliado a pressão sobre as contas públicas e acendido o alerta no governo e em órgãos de controle. A lista de companhias em situação financeira delicada cresceu, e o próprio Ministério da Fazenda já reconhece o risco de novos aportes de recursos da União.
Depois dos Correios, foi a vez da Eletronuclear recorrer ao governo em busca de socorro financeiro. A estatal solicitou um aporte de R$ 1,4 bilhão com urgência. A empresa é responsável pelas usinas Angra 1 e Angra 2 e mantém a estrutura de Angra 3, cuja obra está paralisada há dez anos.
Especialistas apontam que a indefinição em torno de Angra 3 está no centro do problema. Apenas a manutenção dos equipamentos e da estrutura já construída custa cerca de R$ 1 bilhão por ano. Estudos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) indicam que a conclusão da usina exigiria aproximadamente R$ 24 bilhões. Por outro lado, abandonar o projeto também teria um custo elevado, estimado entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões.
Para o engenheiro e ex-diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Gerson Kelman, o mais importante é que o governo tome uma decisão definitiva. Ele classifica a situação como um “desperdício de recursos” e destaca que é preciso avaliar com segurança os custos envolvidos, inclusive o preço estimado da energia a ser gerada, cerca de R$ 800 por megawatt-hora, considerado elevado.
Já o ex-diretor da Aneel e professor Edivaldo Santana defende uma reestruturação mais ampla da Eletronuclear e aponta a privatização como possível solução. Embora a Constituição proíba o controle da área nuclear por capital privado, ele considera que uma mudança na legislação poderia ser debatida, sob o argumento de que investidores privados tenderiam a definir com maior rapidez o futuro da usina.
A Eletronuclear é uma das nove estatais classificadas como em risco financeiro no Relatório de Riscos Fiscais da União de 2025. O documento lista empresas que, por diferentes razões, podem demandar aportes da União, agravando o déficit público. Além da estatal do setor nuclear, aparecem com sinais de alerta a Casa da Moeda, a Infraero e as companhias Docas do Pará, Ceará, Rio Grande do Norte, Bahia e Rio de Janeiro.
A Lei de Diretrizes Orçamentárias previa um rombo de R$ 6 bilhões nas estatais neste ano, mas a estimativa já supera os R$ 9 bilhões. Diante do cenário, o Tribunal de Contas da União (TCU) criou uma força-tarefa para fiscalizar as nove empresas consideradas mais vulneráveis.
Entre os casos mais preocupantes estão os Correios. Segundo o Ministério da Fazenda, a estatal segue em trajetória de deterioração financeira. Na semana passada, o governo dobrou a previsão de prejuízo da empresa para este ano, que deve se aproximar de R$ 6 bilhões.
Em entrevista à GloboNews, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que não há debate no governo sobre a privatização dos Correios. Ele destacou que serviços postais são estratégicos e, em muitos países, permanecem sob responsabilidade do Estado, inclusive com subsídios para garantir a universalização.
Haddad minimizou o impacto fiscal imediato dos prejuízos, afirmando que o rombo foi absorvido dentro das regras do novo arcabouço fiscal. No entanto, ressaltou que o governo só aprovará um plano de reestruturação da empresa caso ele seja consistente e tecnicamente fundamentado.
O avanço dos prejuízos nas estatais amplia o desafio do governo de equilibrar as contas públicas e impõe decisões estratégicas que podem redefinir o papel do Estado em setores considerados essenciais.
