WASHINGTON / BRASÍLIA – O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, participa nesta terça-feira de uma audiência no Senado norte-americano para prestar esclarecimentos sobre a operação realizada em Caracas no dia 3 de janeiro, que resultou na captura do então presidente venezuelano Nicolás Maduro. A ação, classificada pelo próprio governo norte-americano como “necessária para a restauração da ordem democrática”, marca um episódio sem precedentes na história recente da América do Sul.
De acordo com trechos do depoimento antecipados pelo Departamento de Estado, Rubio deve reforçar que a atual presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, também pode ser deposta caso se recuse a cooperar com Washington. O secretário afirma que Rodríguez “conhece muito bem o destino de Maduro” e faz um alerta direto: os Estados Unidos estão preparados para usar a força caso outros métodos falhem.
“Não se enganem. Estamos preparados para assegurar a máxima cooperação, inclusive com o uso da força, se necessário”, afirma Rubio no texto divulgado previamente.
A nova advertência do governo norte-americano vem a público poucos dias após Delcy Rodríguez declarar estar “farta da pressão dos Estados Unidos” e rejeitar o que chamou de “ordens de Washington”. A presidente interina afirmou que a Venezuela não aceitará interferência externa em seus assuntos internos, mesmo diante das sanções econômicas e do controle norte-americano sobre ativos estratégicos do país, especialmente o petróleo.
Operação sem precedentes
A ofensiva militar realizada em janeiro de 2026 é considerada histórica por analistas internacionais. Trata-se da primeira vez que forças armadas dos Estados Unidos atuam diretamente em território sul-americano para capturar um chefe de Estado em exercício. Maduro foi levado para Nova Iorque, onde responde a processos por corrupção, narcotráfico e violações de direitos humanos.
Para especialistas, a ação alterou profundamente o equilíbrio político da região e abriu um novo capítulo nas relações entre os Estados Unidos e a América Latina.
Em entrevista ao programa, a professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Carolina Pedroso, afirmou que o episódio evidencia o grau de tensão entre Washington e Caracas e levanta incertezas sobre os próximos passos do governo venezuelano.
“Há uma grande indefinição dentro da própria Venezuela sobre como o governo interino vai lidar com essa pressão. Ao mesmo tempo, a audiência no Senado tem o objetivo de justificar, tanto ao Congresso quanto à opinião pública norte-americana, os custos e as consequências de uma operação que cruzou uma linha que nunca havia sido ultrapassada”, avalia.
Segundo a professora, a incursão militar teve impactos diretos não apenas na política interna venezuelana, mas também no debate político latino-americano como um todo.
“Hoje a discussão na região gira em torno de como os Estados Unidos vão se relacionar com a América Latina: se por meio da ameaça, da coerção e, em última instância, do uso da força militar, ou se ainda haverá espaço para a diplomacia e o diálogo”, afirma.
Doutrina Trump e o papel do Brasil
A situação venezuelana também é vista como um teste prático da chamada “doutrina Donrong”, expressão usada para definir a política externa adotada pelo governo Donald Trump em seu novo mandato, marcada por ações diretas e menor tolerância a governos considerados hostis aos interesses norte-americanos.
O tema foi mencionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante discurso no Panamá, no qual lamentou a incapacidade da América Latina de produzir uma nota conjunta condenando a intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela. Para Lula, a ausência de uma posição unificada enfraquece a região no cenário internacional.
Apesar disso, analistas questionam até que ponto o Brasil tem capacidade real de interferir no processo. Lula já sinalizou a intenção de retomar o diálogo com Delcy Rodríguez e tem encontro previsto com Donald Trump em março.
A dúvida central é se o Brasil conseguirá atuar como mediador relevante ou se continuará sendo marginalizado nas decisões estratégicas de Washington para a região.
Para Carolina Pedroso, o momento exige uma reflexão profunda sobre o papel do país.
“O Brasil precisa decidir se quer assumir uma postura mais ativa, mesmo com custos diplomáticos, ou se aceitará um papel secundário, com pouca margem de influência real. A Venezuela hoje é um caso emblemático do tipo de relação que os Estados Unidos pretendem estabelecer com a América Latina nos próximos anos”, conclui.
Enquanto isso, a audiência de Marco Rubio no Senado promete intensificar o debate interno nos Estados Unidos e ampliar a pressão internacional sobre o futuro político da Venezuela, em um cenário ainda marcado por instabilidade, incertezas e risco de novos confrontos diplomáticos – ou militares – na região.
