Senador nega irregularidades em patrocínio para filme sobre Jair Bolsonaro e cita repasses milionários do banco a grupos de comunicação
A crise envolvendo o Banco Master, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e nomes influentes da política brasileira ganhou um novo capítulo nos últimos dias, após a divulgação de áudios e documentos que apontam negociações para o financiamento de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. No centro da polêmica está o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República pelo PL, que nega qualquer irregularidade e afirma que a captação de recursos ocorreu de forma privada e sem uso de dinheiro público.
A reportagem que deu origem à controvérsia foi publicada pelo Intercept Brasil, que afirmou ter obtido mensagens, comprovantes e registros de conversas indicando uma negociação de até R$ 134 milhões para bancar a produção cinematográfica “Dark Horse”, voltada à trajetória de Jair Bolsonaro. Segundo a publicação, cerca de R$ 61 milhões teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025 por meio de estruturas intermediárias.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, declarou que se tratava de um pedido de patrocínio privado para um filme privado, sem dinheiro público, sem Lei Rouanet e sem promessa de favorecimento político. Em nota e entrevistas, o senador afirmou que não recebeu recursos pessoalmente, não ofereceu vantagens indevidas e não intermediou negócios com o governo.
A controvérsia ocorre em meio a um cenário eleitoral acirrado. Pesquisas recentes mostram Flávio Bolsonaro em disputa competitiva contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em simulações de segundo turno. Levantamento Genial/Quaest apontou Lula com 42% e Flávio com 41%, em empate técnico, enquanto a Datafolha também registrou cenário de empate entre os dois nomes.
Durante entrevista à GloboNews, Flávio Bolsonaro reagiu aos questionamentos e tentou inverter o foco do debate. O senador afirmou que empresas ligadas a Daniel Vorcaro e ao Banco Master também teriam mantido contratos milionários com veículos de comunicação e programas de televisão, citando, entre outros casos, suposto aporte de R$ 160 milhões ligado ao programa “Domingão com Huck”, da TV Globo. A declaração foi feita em tom de confronto, enquanto jornalistas questionavam o parlamentar sobre sua relação com Vorcaro.
O caso também reacendeu uma disputa pública envolvendo veículos de imprensa. Reportagens e reações cruzadas apontaram que o portal Metrópoles teria recebido cerca de R$ 27 milhões do Banco Master, enquanto o próprio Metrópoles afirmou que o Estadão também recebeu valores do banco em contratos publicitários, além de ter obtido empréstimos no mercado financeiro com participação de bancos privados. O Estadão, segundo relatos publicados, confirmou recebimento por publicidade institucional, cobertura patrocinada e mídia digital, negando influência editorial.
A defesa de Flávio e aliados bolsonaristas sustentam que há uma tentativa seletiva de transformar em escândalo uma captação privada de recursos, ao mesmo tempo em que contratos publicitários entre o Banco Master e empresas de mídia seriam tratados como operações normais de mercado. Para esse grupo, a cobertura da imprensa teria motivação política e buscaria desgastar o senador justamente no momento em que ele se consolida como principal nome do campo bolsonarista para 2026.
Do outro lado, críticos do senador afirmam que a proximidade com Daniel Vorcaro precisa ser investigada, especialmente diante das apurações sobre fraudes atribuídas ao Banco Master. A Associated Press informou que Vorcaro está no centro de uma investigação de corrupção e fraude, e que a Polícia Federal estima prejuízos bilionários relacionados ao caso. A Reuters também registrou reação negativa do mercado financeiro após a divulgação das informações envolvendo Flávio e o ex-banqueiro.
Até o momento, não há decisão judicial afirmando que Flávio Bolsonaro tenha cometido crime no episódio do filme. O próprio debate público, porém, passou a girar em torno de duas perguntas centrais: se houve apenas patrocínio privado legal para uma produção audiovisual ou se a relação com Vorcaro escondia interesses políticos e financeiros ainda não esclarecidos.
O episódio coloca sob pressão não apenas o senador, mas também empresas de comunicação, políticos de diferentes campos ideológicos e agentes do sistema financeiro que mantiveram relações com o Banco Master antes do aprofundamento das investigações. A tendência é que o caso continue repercutindo em Brasília, no mercado e na disputa presidencial, especialmente se novos documentos, contratos e mensagens vierem a público.
Para Flávio Bolsonaro, a narrativa é de perseguição política e tratamento desigual. Para seus adversários, o caso exige investigação ampla e transparente. Em ano eleitoral, a crise do Banco Master deixou de ser apenas um escândalo financeiro e passou a ocupar o centro da disputa pelo poder no país.
